sábado, 1 de julho de 2017

Janot, Temer e a Falência Intelectual dos Brasileiros

Escrevo este artigo por consequência do que estou vendo nas redes sociais e também no jornalismo. Em resumo, vejo uma campanha contra o atual Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, cujo mandato está encerrando e o nome de sua substituição já foi anunciada. O significado dessa campanha deve ser analisado criteriosamente, pois poderá influenciar no rumo do país.

O Procurador do Mensalão, Roberto Gurgel, em nenhum momento colocou o Lula sob investigação e as condenações mais severas foram para o publicitário Marcos Valério e a ex-presidente do Banco Rural, Kátia Rabelo. Tirando os quatro procuradores mencionados, os restantes são lembrados como “engavetadores”. Trocando em miúdos, por pior que tenha sido o Janot, ele foi o melhor Procurador Geral da República que o Brasil já teve, simplesmente por ter denunciado o presidente em exercício.

Michel Temer, por sua vez, foi a principal liderança do PMDB nos acordos com o PT. Foi um acordo entre PMDB e PT que salvou Lula de um pedido de impeachment no escândalo do mensalão, foi esse acordo que deu início ao petrolão e foi Temer quem liderou a oficialização do PMDB como parte do segundo governo do Lula, conquistando também a vaga de vice da Dilma. Tentar separar Temer e o PMDB da corrupção do Lula e do PT, é simplesmente insanidade intelectual.

Diante do exposto, já é possível perceber que a campanha contra o Janot significa a falência intelectual dos brasileiros, mas o objetivo deste artigo é mostrar o grande risco que isso representa para o Brasil. Não há dúvidas que a campanha contra o Janot está sendo financiada pelo governo Temer e a parte mais ilustre de sua base aliada. Evidentemente isso tudo não está sendo financiado dentro dos padrões republicanos e o custo dessa campanha pode jamais ser conhecido.

Para entender as consequências dessa campanha, é necessário lembrar de uma campanha anterior, direcionada contra a Operação Carne Fraca. Naquela campanha, a operação foi desqualifica na imprensa e nenhuma atitude para melhorar a fiscalização nos frigoríficos foi tomada, o resultado foi uma investigação no exterior, que interrompeu a importação de carne bovina nos EUA e restrições também na Europa. Os bestas que combateram a Operação Carne Fraca, sob o pretexto de defender empregos, agora podem comemorar o resultado, mas parecem que estão comemorando em silêncio.

Essa campanha contra o Janot segue na mesma direção, ou seja, vai ajudar a manter o problema usando uma desculpa esfarrapada, porém a desculpa desta vez não é o emprego, mas a volta do Lula. Ocorre que o que mais beneficia o Lula, eleitoralmente, é justamente a impunidade do Temer. Para melhorar a situação do Lula, Temer já nomeou uma pessoa de confiança para substituir Janot, o que significa que a operação Lava Jato será significativamente enfraquecida em Brasília, ficando restrita aos trabalhos feitos pela equipe de Curitiba.

Então vejamos, por mais que Lula apareça em primeiro lugar nas pesquisas para o primeiro turno, ele não aparece em condições de vencer no segundo turno, portanto o discurso de “diretas já” é apenas um discurso para ser apresentado em 2018, como o candidato que defendeu “as diretas” enfrentando os que defenderam as “indiretas”, se as eleições realmente acontecessem ele sabe muito bem que sairia derrotado.

Mas a parte mais interessante, é o direcionamento do foco das atenções para o desejo de prisão do Joesley Batista, da J&F (JBS/Friboi). O motivo desse direcionamento é simples, Joesley será o Marcos Valério da vez, ou seja, desejam que Joesley seja condenado severamente, enquanto que os políticos receberão penas amenas, como aconteceu no mensalão, Temer será apenas o “não sabia” da vez e, como aconteceu com o mensalão, a corrupção não vai diminuir, muito pelo contrário, vai se remodelar e provavelmente se fortalecer.

Para encerrar, vale a pena lembrar que Marcos Valério tentou fazer um acordo de colaboração, mas o procurador da época não aceitou. Se tivessem feito acordo com Marcos Valério, como fizeram com Joesley Batista, todo o esquema teria aparecido muito antes da Lava Jato. Por hoje é só, mas não ficarei surpreso se essa tal direita começar a gritar “Eduardo Cunha, guerreiro do povo brasileiro”.

(Milton Valdameri, julho de 2017).

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Alzheimer

O tema deste ensaio pode parecer deslocado da filosofia, pois em princípio esse é um tema para ser tratado pela ciência direcionada à medicina, mas essa doença, que é uma forma de demência degenerativa, também é uma doença intelectual, por isso a filosofia tem o dever de estar atenta para essa insanidade, tanto quanto deve estar atenta para qualquer outra insanidade ou debilidade intelectual.

A doença de Alzheimer evolui de forma única em cada pessoa, embora existam sintomas em comum; por exemplo, o sintoma inicial mais comum é a perda de memória. Muitas vezes, os primeiros sintomas da doença são confundidos com os processos normais de envelhecimento ou stress. Quando se suspeita de Alzheimer, o paciente é submetido a uma série de testes cognitivos e radiológicos para confirmar o diagnóstico.” (Wikipedia). Embora a Wikipedia não seja uma fonte acadêmica, ela foi citada por apresentar um texto apropriado para o ensaio, e as informações podem ser confirmadas em fontes acadêmicas.

A característica dessa doença, que mais atrai minha atenção, é que a perda de memória ocorre com a memória recente nos primeiros estágios, enquanto que a memória de longo prazo só é afetada em estágios mais avançados. Um tratamento que apresenta alguns efeitos positivos, é o uso de medicamentos usados para tratar esquizofrenia. Outro tratamento que está apresentando alguns resultados, é o tratamento com antidepressivos, em especial os usados para tratar o transtorno do pânico. Isso tudo sugere que os fatores intelectuais podem ser mais significativos que os fatores fisiológicos.

No caso da esquizofrenia, o paciente tem visões e/ou ouve vozes que interferem na relação com a realidade, no caso da doença Alzheimer, aparentemente, é a memória do passado que interfere na relação com o presente. O transtorno do pânico, consiste basicamente em não suportar o cotidiano, inclusive não suportando mais sair de casa (agorafobia). O tratamento da doença do Alzheimer com antidepressivos utilizados para tratar o transtorno do pânico, indica a mesma direção que o tratamento com medicamentos para esquizofrenia.

Aparentemente, o indivíduo perde o interesse por aquilo que o presente tem para lhe oferecer, e busca compensar o presente com sua memória de longo prazo. Não é necessário fazer uma pesquisa muito profunda para identificar situações onde as pessoas esquecem coisas simples por não serem interessantes, mas não esquecem coisas fúteis pelas quais sentem interesse. Sem pretender provocar as feministas, não faltam situações onde a dona de casa esquece de fazer a janta, mas não esquece de assistir a novela.

Evidentemente que esquecer de fazer a janta e não esquecer de assistir a novela, não é um sintoma da doença, mas é uma boa evidência de que a memória sobrepõe àquilo que é mais interessante em relação àquilo que é menos interessante, independentemente de ser, ou não, mais necessário. Quando essa sobreposição se torna muito frequente, é melhor ligar o alarme. Mas é necessário lembrar, que essas mesmas características são encontradas em dependentes químicos, porém os dependentes químicos são jovens e não possuem uma memória de longo prazo para se sobrepor à memória de curto prazo, é aí que entra o uso de drogas que os isolam do presente.

No caso da doença Alzheimer, existe uma característica na sociedade pós moderna que pode ter muita relação com a insanidade em questão, ela é voltada para despertar o interesse dos jovens e o máximo que oferece aos idosos é distração e entretenimento, nada oferece para despertar nos idosos o interesse em permanecer desenvolvendo o intelecto. Antes que alguém diga que estou me rebelando contra a sociedade, vou lembrar aos leitores que a média de vida no começo do século XX estava abaixo dos quarenta anos e só ultrapassou os sessenta anos na segunda metade do século XX, portanto, a necessidade despertar nos idosos, o interesse em desenvolver o intelecto, é uma situação muito recente dentro do contexto histórico.

Esta pode ser a contribuição que a filosofia pode dar na questão da doença Alzheimer, a busca pelo conhecimento como uma prática constante pode ser também uma questão de sanidade intelectual. Mas não parece razoável começar essa busca pelo conhecimento quando o indivíduo se tornar idoso, pois se ele perdeu o interesse pelo conhecimento quando jovem, não voltará a ter o interesse, simplesmente por que a juventude acabou, e como foi sugerido no ensaio, o interesse do indivíduo seria a chave do problema.

Em resumo, a busca pelo conhecimento pode ser a chave para superar a doença do Alzheimer e talvez a dependência química. Mas é necessário entender que não deve ser confundido crença com conhecimento, os fatos mostram justamente que as crenças nada podem oferecer às pessoas com alguma insanidade intelectual.

(Milton Valdameri, junho de 2017).


quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Lava Jato no Banco dos Réus

A Operação Lava Jato está sendo a menina dos olhos da maioria da população brasileira há três anos. Os últimos acontecimentos, ocorridos entre 17/05/2017 e 23/05/2017, colocaram a Lava Jato em situação, no mínimo, preocupante. Em primeiro lugar é necessário dizer que a Lava Jato nunca foi uma primazia jurídica, mas também é necessário dizer que, no Brasil, o mundo jurídico é caótico, portanto não se pode esperar primazia jurídica em nenhuma operação. Este ensaio tentará enxergar além da cortina de fumaça que envolveu a vida política e jurídica do Brasil.

Em 17/05/2017, por volta das dezenove horas, o jornalista Lauro Jardim publicou em seu blog, hospedado por O Globo, o vazamento de uma gravação onde Joesley, do grupo J&F, controlador do JBS (Friboi), conversou com o presidente da república, Michel Temer. Nessa conversa, segundo a manchete do blog, Temer teria dado o aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha. No dia seguinte, às dezesseis horas, o presidente fez um pronunciamento dizendo que não renunciaria e alegou que não havia literalidade na gravação, sobre ele ter dado aval para comprar o silêncio de Cunha. Sobre essa literalidade, já publiquei um ensaio (aqui).

Por iniciativa do próprio Temer, via imprensa e não via jurídica, diga-se de passagem, o sigilo das gravações foi retirado pelo juiz do STF, no mesmo dia do pronunciamento. No dia seguinte ao pronunciamento, o jornalismo amanheceu adotando a alegação do presidente, dizendo que não havia a tal literalidade. A estratégia de Temer prosseguiu acusando a gravação de edição, a estratégia foi apoiada por perícias patéticas divulgadas nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo.

Peritos renomados refutaram as perícias patéticas, entre eles o perito Ricardo Molina, que surpreendentemente, foi contratado pela defesa do Temer, que, de forma mais patética que os peritos que ele mesmo refutou, afirmou diante da imprensa, que a gravação não é uma prova válida, mas que ele ainda não tinha feito a perícia. Os meios de comunicação, incluindo redes sociais, se tornaram o tribunal político e jurídico do Brasil e se encarregaram de produzir a cortina de fumaça em questão.

A atuação do presidente se tornou secundária na novela, ficou mais próximo de um figurante do que um coadjuvante, o protagonismo passou para a edição na gravação, uma conspiração para eleger o Lula novamente presidente da república e o acordo realizado entre MPF e JBS. Isso colocou a Lava Jato no banco dos réus desse tribunal das opiniões. Antes de mostrar o que vejo atrás da cortina de fumaça, vou analisar brevemente, cada um dos fatores que compõem essa cortina de fumaça.

A gravação foi realmente editada, posso afirmar isso com base no fato de que a gravação foi feita com dois gravadores, portanto a gravação entregue ao MPF é uma composição das duas gravações, mas isso não invalida a gravação. Não vou entrar no mérito das perícias, isso é função dos peritos e advogados envolvidos no inquérito, se houver algo polêmico nas perícias, talvez eu publique uma análise.

Sobre a conspiração para eleger o Lula, com a substituição do Temer através de eleição direta, só posso dizer que é uma questão jurídica que não prevê essa possível eleição, então não há motivos para aprofundar a questão. Sobre o acordo com a JBS, trata-se de uma questão paralela que não pode e não deve ser usada em favor do presidente, muito menos para desviar a atenção do público em relação ao fato mais importante, as atitudes do presidente.

É necessário lembrar que existe uma possibilidade jurídica para a realização de eleições diretas, baseada na lei eleitoral, mas é controversa e só poderia ser aplicada no caso de cassação da chapa, que está em julgamento no STE. Em caso de renúncia ou impeachment, não há possibilidade jurídica de eleição direta, portanto não faz sentido criar uma situação de renúncia ou impeachment, para eleger o Lula, pois isso extinguiria justamente o processo no STE, que poderia permitir a desejada eleição. A teoria de que o cordo do JBS tem o objetivo de fazer uma eleição para eleger o Lula, é puro terrorismo barato.

Por trás da cortina de fumaça, vejo o seguinte: o Temer recebendo o Joesley de forma tão clandestina quanto a gravação que ele diz ser clandestina. Vejo a JBS envolvida em falcatruas, e as revelando, onde está envolvido o BNDS, mas vejo também que, essas falcatruas ocorreram quando o Henrique Meireles, atual ministro da fazenda, foi por oito anos, presidente do banco central, depois continuaram ocorrendo quando o Meireles foi presidente do conselho administrativo da J&F, que controla a JBS.

Então vejamos, se o Henrique Meireles não sabia de nada, por que Dilma saberia o que acontecia na Petrobras, ou saberia das tais pedaladas? Por que Lula saberia do Mensalão e das propinas destinadas aos partidos? Se havia essa montanha de falcatruas, envolvendo o BNDS, por que a atual presidente do banco não as denunciou? Por que foi preciso que a própria J&F (JBS) denunciasse? Não posso deixar de mencionar que Marco Antônio Villa está cobrando um relatório da presidente do BNDS há um ano.

Agora é necessário mencionar o que é possível ver sem nenhuma dificuldade, pois está na frente da cortina de fumaça. A preocupação maior entre os políticos e entre os “grandes empresários”, é manter a equipe econômica, inclusive a presidente do BNDS. Henrique Meireles é um dos mais cogitados para ser candidato à sucessão do Temer no colégio eleitoral. É oportuno lembrar que o Lula articulou, publicamente, para que o Meireles fosse nomeado ministro da fazenda pela Dilma, só não foi por que Dilma e Meireles não se bicam, mas o impeachment resolveu esse problema, não é?

A questão não é se Temer fica ou sai, a questão é, se a equipe econômica fica ou sai. Temer é descartável, assim como a Dilma, mas se for necessário mantê-lo até o final do mandato, para manter a equipe econômica, ele será mantido, não importa o custo. Essa é a questão que pode explicar o acordo entre MPF e J&F, prender os colaboradores deixaria a opinião pública satisfeita, mas não seria realizado o acordo, permitindo que as falcatruas envolvendo BNDS e outras empresas continuassem protegidas, inclusive continuando a serem praticadas. Alguém acredita que JBS e Odebrecht foram as únicas beneficiadas com falcatruas no BNDS? Aliás, o BNDS é sócio na JBS, como punir um sócio sem punir o outro?

No meu entendimento, o acordo com a J&F é secundário nesse momento, inclusive porque existem instrumentos que permitem a revisão do acordo em momentos apropriados e da forma apropriada. A questão não está em eleger novamente o Lula, mas em tirar do poder a organização criminosa inteira. São esses que estão no poder que podem eleger novamente o Lula, e tenho motivos para suspeitar que farão exatamente isso para continuar no poder. São esses que estão no poder, que agiram de forma mais intensa, para enfraquecer a Lava Jato. Para encerrar, não esqueçam que, em setembro deste ano, Temer vai nomear o novo Procurador Geral da República.

(Milton Valdameri, maio de 2017).


sábado, 20 de maio de 2017

A Literalidade de Michel Temer

A grande sacada de Michel Temer e seus “brilhantes” assessores, foi argumentar na imprensa que, na conversa com Joesley Batista, não há literalidade de aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha. Por motivos óbvios, a literalidade do restante da conversa não está sendo comentada pelo governo, da mesma forma como, na Operação Carne Fraca, houve uma campanha nos meios de comunicação, onde a compra e venda de certificados foi simplesmente retirada da pauta. Pretendo neste artigo, mostrar que a literalidade do aval existe.

A nota do governo, após conhecer o conteúdo completo da polêmica gravação, diz que houve uma situação de alívio. No dia seguinte, parte significativa do jornalismo e da população, abraçaram a ideia de “aliviar” a situação do Temer. Então vejamos, trata-se de duas situações distintas, uma jurídica, onde o benefício da dúvida age em favor de Michel Temer, e outra política, onde o benefício da dúvida age justamente no sentido contrário. Caso alguém não tenha entendido, o judiciário não deve condenar em caso de dúvida, ao mesmo tempo que ninguém deve exercer cargo público quando há dúvidas sobre sua honestidade.

Mais uma vez, temos uma situação onde jornalismo e opinião pública atuam como agente judiciário e esperam que o judiciário atue como agente político. Vou analisar a transcrição da conversa, que está disponível aqui. A literalidade do Temer consiste no seguinte: Temer disse, “tem que manter isso, viu?”, logo após Joesley ter dito, “eu estou de bem com o Eduardo”, ou seja, Temer disse para manter ISSO, o bom relacionamento com Eduardo Cunha. Mas tem outra parte na fala de Joesley, onde ele diz estar de bem com o Eduardo, é o seguinte: “que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora”.

Portanto, o ISSO, de Michel Temer, é manter aquilo que estava sendo feito, que tinha sido feito até aquele momento. Então vejamos o que Joesley disse ter feito: “Joesley: Eu, dentro do possível, o máximo que deu ali, zerei tudo. O que tinha de alguma pendência daqui para ali. Zerou. Ele foi firme, foi em cima, já estava lá, veio, cobrou, tal. Pronto. Acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que está aqui [inaudível]. Geddel sempre estava [inaudível]. Geddel é que sempre andava ali. Mas o Geddel com esse negócio eu perdi o contato porque ele virou investigado, agora eu não posso encontrar ele”. Esta fala será identificada de agora em diante como “Fala-1”.

Temer comentou a Fala-1 da seguinte forma: Temer: É complicado. [inaudível] obstrução de Justiça.(Fala-2). A parte inaudível, certamente será devidamente compreendida pelos peritos, que dispõem de tecnologia adequada para analisar a gravação, mas isso é irrelevante, pois seja qual for o conteúdo inaudível, não resta dúvida de que Temer identificou obstrução de justiça no conteúdo da Fala-1. Joesley continua: “Joesley: Negócio dos vazamentos. O telefone lá do Eduardo com o Geddel volta e meia citavam alguma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o que. Eu tô lá me defendendo.” (Fala-3); “Joesley: [inaudível]. Como é que eu... Que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora. Eu tô de bem com o Eduardo...(Fala-4).

É depois disso tudo que Temer diz: “Temer: Tem que manter isso, viu?(Fala-5). Então vamos deixar esclarecido que, dizer algo literalmente, não significa necessariamente dizer com as palavras literais, pode ser dito com uma confirmação. Por exemplo, alguém diz que vai matar o vizinho e você diz “faça isso”, neste caso, você está dizendo literalmente para o cara matar o vizinho, sem pronunciar a palavra matar.

A questão da literalidade na frase do Temer, em Fala-5, não pode ser relacionada apenas com a parte final da Fala-4. Mesmo forçando a barra para relacionar a fala-5 apenas com a parte final da Fala-4, é necessário explicar por que o Joesley TEM que se manter “de bem com o Eduardo”, inclusive enfatizando com um “VIU?”. A Fala-5 não foi apenas um comentário, foi literalmente uma ordem e uma cobrança.

Em Fala-4, Joesley diz que “que eu mais ou menos dei conta de fazer”, que implica a obstrução de justiça identificada por Temer em Fala-2 e “[…] alguma coisa meio tangenciando a nós [...]”, mencionado por Joesley em Fala-3, então vou deixar o leitor decidir, se o ISSO do Temer está, literalmente ligado ao “mais ou menos dei conta de fazer”, ou ao “Eu tô de bem com o Eduardo”.

(Milton Valdameri, maio de 2017).


quarta-feira, 17 de maio de 2017

O Mistério da Vida e da Morte

Este ensaio foi estimulado por um texto publicador por um amigo no Facebook, surrupiei e disponibilizo aqui. Não pretendo comentar o texto, que considero muito bom, pois ele é baseado em uma concepção ocidental que considera a possibilidade de reencarnação. É oportuno lembrar que as igrejas cristãs não admitem a possibilidade de reencarnação. Este ensaio pretende abordar a possibilidade de continuação da vida após a falência do corpo, usando como referência o conhecimento científico atual e mantendo-se dentro dos fundamentos da filosofia. Não pretendo agradar nem desagradar qualquer crença.

Em primeiro lugar é necessário estabelecer o significado que as palavras terão neste ensaio, para evitar que os leitores façam interpretações de acordo com significados que considerarem convenientes para satisfazerem suas crenças. O significado da palavra Alma é, em sua tradução literal, vida. O significado da palavra Espírito, na forma mais literal, é sopro, mas também admite outros significados, dependendo do texto onde aparece, neste ensaio o significado usado será essência. Portanto, neste ensaio, um indivíduo é composto de Alma (vida), Espírito (essência) e corpo. Apenas por curiosidade, dentro deste ensaio o Espírito Santo não pode fazer parte de uma trindade, neste ensaio o uso da palavra espírito com o significado de indivíduo não é aceitável.

O conhecimento científico atual não é capaz de dizer o que é a vida, como surgiu nem o que faz um indivíduo ser diferente do outro, no sentido de dizer o que faz João ser João e José ser José, no entanto podemos diferenciar um corpo com vida de um corpo sem vida, seja em animais ou vegetais. Portanto podemos dizer com segurança que vida é algo presente ou ausente em determinados seres. A grande questão que intriga a humanidade desde seus primórdios, é se a vida continua existindo após a falência do corpo em que está. Este ensaio vai apresentar uma hipótese, para o surgimento da vida e para a possibilidade de existir vida sem que esteja presente em algum corpo.

É legítimo dizer que um corpo com vida é um corpo com energia, portanto também é legítimo supor que a vida é uma espécie de energia. O universo em si, nada mais é que energia, mesmo quando produzimos vácuo quântico é possível detectar energia no vácuo. Essa energia, que vou denominar de energia cósmica, não pode ser destruída, só pode ser transformada, tudo o que existe nada mais é que essa energia transformada. Logo, é possível que a vida seja uma tênue transformação dessa energia.

Para conseguir expor meu raciocínio, vou substituir a energia cósmica, que é um fluído, pela água em estado líquido e a matéria por partículas de gelo. Como não existe energia sólida, a vida também seria um fluído, para que a vida continuasse existindo, seria necessário que esse fluído não se diluísse na água, ou seja, precisa ser como o óleo. Essa será a analogia usada para explicar o raciocínio, universo é água, matéria é gelo e vida é óleo.

Não está em questão aqui, como e quando a energia começou a se transformar em matéria, basta apenas saber que isso aconteceu. Então vamos imaginar um universo sem matéria, ou seja, água sem partículas de gelo. Conforme as partículas de gelo foram surgindo, elas foram se combinando e arranjando suas moléculas de forma diferente. Uma dessas combinações começou a produzir energia química e adquire a propriedade de se replicar, mas nessa fase o gelo não possui vida, é como um vírus.

Esse vírus de gelo, combinando-se com outros vírus, resulta em uma nova combinação de moléculas, que além de energia química, também produz energia eletromagnética, como ocorre com os animais, mas ainda não existe vida nessa partícula de gelo, é apenas um objeto como um brinquedo que funciona com uma bateria, quando a bateria termina, tudo acaba. Em minha hipótese, essa energia eletromagnética seria a responsável pela transformação da água (energia cósmica) que envolve a partícula de gelo em óleo (energia que denominamos domo vida, a Alma). Quando ocorre a falência da partícula de gelo, ela se decompõe, mas o óleo que a envolve continuará existindo.

Desta forma, o gelo é o corpo, a gota de óleo é a Alma e o Espírito é o conjunto de conhecimentos, sentimentos, desejos, crenças e tudo aquilo que forma a individualidade de uma pessoa, isso tudo continuaria existindo na gota de óleo. Agora vem a questão que muitos devem estar esperando e se relaciona com o texto mencionado no início do ensaio, essa hipótese permite a possibilidade de reencarnação? A resposta é sim, inclusive existem fatos que podem indicar que a hipótese não é tão maluca quanto parece.

Mas antes de analisar a possibilidade de reencarnação, é necessário analisar questões mais significativas. A primeira questão é como as Almas sem corpo poderiam se comunicar entre elas e como poderiam se comunicar com as Almas que estivessem ligadas a um corpo. Essa questão pode ser respondida com simplicidade, pois os animais se comunicam basicamente através de vibrações, como por exemplo o som, então bastaria que a Alma emitisse vibrações, na energia cósmica, que fossem entendidas por outras Almas.

Sobre a maneira como as Almas poderiam emitir vibrações, é necessário lembrar que, se a matéria pode emitir vibrações, então a energia também pode, inclusive, a matéria é apenas um estado da energia. Explicar o mecanismo exato dessa emissão de vibrações não se mostra necessário neste ensaio, da mesma forma como não é necessário mostrar o mecanismo exato que fez surgir a vida. Além do mais, eu não consigo imaginar tais mecanismos, muito menos explicá-los.

Porém há uma questão importante, que pode ser facilmente explicada, é por que a comunicação entre Almas sem corpo e Almas com corpo é tão difícil, se é que ela ocorre. A explicação para isso é que, estando ligada a um corpo, a Alma recebe vibrações muito mais fortes do corpo ao qual está ligado, do que as vibrações que recebe de Almas sem corpo, da mesma forma como duas emissoras de rádio, com potências diferentes, onde uma impede a comunicação da outra, sendo necessária uma sintonia muito específica para conseguir ouvir a rádio com potência inferior.

Agora podemos analisar a reencarnação, mas é necessário lembrar que, dentro deste ensaio, a Alma é como uma gota de óleo em universo feito de água. A gota de óleo pode ser dividida e também pode se unir com outra gota de óleo, portanto esse mesmo princípio deve ser usado dentro do ensaio. Desta forma, uma Alma poderia se dividir e reencarnar em mais de um corpo ao mesmo tempo, incluindo corpos de vegetais e animais de outras espécies diferentes daquela onde a alma surgiu. Isso parece absurdo para o conceito de reencarnação concebido pela cultura ocidental, mas dentro do hinduísmo, isso é aceito há milhares de anos. A reencarnação aconteceria com uma Alma sem corpo, se unindo a uma Alma que estivesse começando a existir.

Mas vamos analisar, inicialmente, a reencarnação dentro do conceito ocidental, onde Isaac Newton poderia ter reencarnado como Albert Einstein. Aqui entra uma questão que considero essencial dentro do tema de possíveis reencarnações, pois se Newton reencarnou como Einstein, então para reencarnar ele precisou deixar de ser Newton, ou seja, Newton nunca reencarnou. Agora vem a pergunta, o que aconteceu com Newton? A resposta não parece ser difícil, a Alma de Newton reencarnou, mas não sua individualidade, a Alma de Newton adquiriu uma nova individualidade, a individualidade de Einstein.

Evidentemente, o leitor deve estar perguntando, o que aconteceria, dentro deste ensaio, quando o corpo de Einstein deixasse de funcionar. Deduzo que a Alma que esteve ligada em dois corpos, por consequência teve duas individualidades, resultaria em uma Alma com individualidade distinta das duas que estiveram ligadas a um corpo, embora mantivesse as memórias das duas individualidades, de forma semelhante a uma pessoa, que muda sua individualidade durante a vida, mas lembra como era sua individualidade nas épocas em que era mais jovem.

Agora vem a cereja do bolo. Existem alguns casos muito bem documentados, de pessoas que receberam transplantes de órgãos e adquiriram características da personalidade do doador. A hipótese científica apresentada para esses casos, é da existência de uma memória molecular, ou memória celular, no entanto não há como verificar efetivamente essa memória, além de colocar em cheque a teoria de que a memória reside no cérebro. De certa forma, este ensaio nada mais é do que substituir a hipótese de memória das células, por memória da Alma.

Este ensaio poderia se estender abordando questões morais envolvendo as Almas sem corpo, poderia especular sobre o que acontece com Almas boas e ruins, após a falência do corpo, mas para não correr o risco de criar mais uma crença, este ensaio encerra com a seguinte afirmação: a possibilidade de continuar existindo vida após a falência do corpo, não pode ser descartada, mas a possibilidade de tudo acabar com a falência do corpo, TAMBÉM NÃO PODE SER DESCARTADA.


(Milton Valdameri, maio de 2017).