terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A Genialidade de Bobby Fischer

 Eu nunca gostei de jogar xadrez mas admiro os grandes mestres e aprecio conhecer os movimentos de uma boa partida. Com o ano de 2017 em sua reta final, surgiu na lista de sugestões do Youtube um vídeo que mostra os movimentos de uma das partidas entre o então campeão mundial Boris Spassky (soviético) e o desafiante Bobby Fischer (americano), onde o desafiante tornou-se campeão mundial em 1972 (aqui). Assisti aos vídeos dos principais jogos desta final histórica, não assisti aos movimentos de todos os jogos porque o canal deixou de apresentar uma sequência de empates. O filme O Dono do Jogo (aqui) apresenta a história de Bobby Fischer com imagens reais da final onde sagrou-se campeão, vale a pena assistir. Mas não foi por causa da final histórica que decidi publicar este artigo.

Bobby Fischer se recusou a defender seu título em 1975, contra Anatoly Karpov, por não aceitar o modelo de disputa da partida. Após perder o título mundial, Fischer se tornou recluso desaparecendo tanto dos campeonatos de xadrez como dos meios de comunicação. Outra sugestão do Youtube me levou a outro canal (aqui) onde encontrei as partidas mais impressionantes do que poderia imaginar, disputadas sob uma circunstância interessante e enigmática. A história dessas partidas é contada no início dos vídeos e reproduzo aqui:

Nigel Short, que em 1993 desafiou o russo Garry Kasparov pelo título mundial, disse ao jornal Telegraph que estava certo de ter jogado com Bobby Fischer na internet. Short disse que inicialmente estava cético quando um Grande Mestre grego disse que Fischer estava jogando xadrez rápido anonimamente no site do Internet Chess Club. Apesar de seus receios, Short começou a jogar com um adversário desconhecido e em outubro de 2001 ele perdeu o primeiro de seus 4 desafios por 8-0. Meu adversário desconhecido começava com movimentos extremamente irregulares, senão totalmente absurdos, disse Short. Depois de abrir alguns peões o Rei desfilava na frente das demais peças. Eram movimentos que um Grande Mestre jamais faria. A partir desse início nada promissor, surgiam posições de extraordinário poder. Short disse que no primeiro jogo foi fortemente esmagado. Tenho 99 por cento de certeza de ter jogado com a lenda do xadrez, É extremamente excitante, disse Short”.

No final dos vídeos é informado porque Nigel Short teve certeza que o jogador misterioso era Bobby Fischer: “Durante os jogos online, Short conversou com com seu misterioso oponente, que se mostrou um grande conhecedor do xadrez na década de 1960, período mais ativo de Fischer. A mais decisiva prova veio quando Short perguntou se o seu oponente conhecia Armando Acevedo, um obscuro jogador mexicano. O oponente imediatamente respondeu: Siegen 1970. Fischer jogou com Armando Acevedo na Olimpíada de Xadrez de Siegen em 1970”. Este artigo pretende analisar essa maneira inusitada de jogar xadrez, mas como não existe confirmação oficial de que o jogador misterioso era Bobby Fischer, o artigo usará o nome “Fischer”, entre aspas.

Se por acaso existir algum leitor que não tem conhecimento mínimo de xadrez, é interessante mencionar que o xadrez consiste em não deixar o Rei ser capturado, não importando quantas outras peças restem no tabuleiro. Obviamente, a única maneira de impedir que o Rei seja capturado é deixando-o atrás de outras peças, a não ser que as peças restantes no tabuleiro não tenham capacidade de produzir uma situação de xeque. Desta forma, desfilar com o Rei na frente das outras peças pode ser entendido simplesmente como uma forma de tentar desestabilizar o adversário emocionalmente, semelhante ao lutador de box que baixa a guarda e provoca o oponente para que tente acertá-lo. Mas não é esse o caso com o “Fischer”.

Um bom jogador de xadrez estuda algumas estratégias clássicas e suas variantes. Um jogador muito bom, estuda algumas estratégias clássicas e alternativas com suas variantes. Um ótimo jogador estuda muitas estratégias clássicas e alternativas com suas variantes. Um mestre estuda TODAS as estratégias e variantes que é possível estudar. Parece que o nosso “Fischer” estudou até mesmo as estratégias que não estão disponíveis aos mortais, foi esse o motivo que me levou a escrever este artigo.

Então vejamos, as defesas do xadrez podem ser resumidas em três estratégias clássicas: fazer o roque pequeno trocando de posição o Rei com a Torre mais próxima, fazer o roque grande trocando de posição o Rei com a Torre mais distante ou simplesmente não fazer o roque. Caso alguém não conheça as regras, a movimentação em roque não pode ser realizada depois que o Rei ou a Torre usada já tenha sido movimenta alguma vez na partida. Nessas três estratégias o Rei fica na primeira linha de jogo dos participantes, desta forma, as estratégias de ataque conhecidas estão desenvolvidas com variantes para cada uma dessas três situações, o Rei só costuma ser usado em situações onde é atacado ou precisa dar proteção para alguma peça que esteja ameaçada. É aqui que entra a inovação de “Fischer”.

Ao contrário do que pode parecer, ao desfilar com o Rei em frente às outras peças, “Fischer” não está expondo o Rei, mas escondendo o Rei das estratégias conhecidas, ou seja, o oponente do “Fischer” não saberá qual variante utilizar, enquanto que o “Fischer” conhece muito bem as variantes que pretende usar e pode parar de desfilar com o Rei quando os movimento do oponente estiver de acordo com a variante que será utilizada. Desta forma “Fischer” desestrutura todas as estratégias conhecidas por seus oponentes, forçando-os a jogar como se nunca estivessem estudado nenhuma estratégia. Portanto é possível realizar um estudo que transforme essas partidas em uma nova estratégia com as devidas variantes, para que possa ser estudada pelos mestres e ajudar a formar novos grandes jogadores de xadrez.

É necessário lembrar que a estratégia do “Fischer” não é infalível, não sei qual foi o índice de aproveitamento dessa estratégia, mas suponho que esteja na faixa de 80%, ressalte-se que esse aproveitamento é diante de grandes mestres de xadrez e não jogadores medianos. Mas também é necessário lembrar que essa estratégia só foi usada em partidas rápidas, não é possível avaliar sua eficiência em partidas com tempo prolongado, no entanto isso é mais um motivo para produzir um estudo formal sobre essa estratégia.

Para finalizar, deixo aqui a sugestão para os leitores que jogam xadrez, para formarem um grupo de estudo para descobrir os fundamentos e variantes dessa estratégia, caso isso ainda não tenha sido feito. Eu teria grande satisfação em coordenar o estudo e colaborar com a metodologia de análise de informações que viabilizará o estudo. Caso o resultado do estudo seja satisfatório, poderá ser publicado um livro com os direitos autorais compartilhados pelos membros do grupo de estudos. Feliz 2018 para todos!

Milton Valdameri, janeiro de 2018.Texto abaixo da imagem

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Trump e o Corte de Impostos

 O ano de 2017 está terminando com um surpreendente corte de impostos promovido pelo governo Trump nos EUA. A imprensa militante em favor de Donald Trump se esforça para tornar esse episódio uma marca incontestável de genialidade, mas a maioria esmagadora dos economistas do mundo não se mostra otimista com esse episódio, ao contrário, mostra-se receosa. No meu entendimento, o principal problema até agora não está no corte de impostos propriamente dito, mas no debate que está havendo sobre ele, ou seja, o debate está ocorrendo apenas no âmbito político, com argumentação baseada em idealismo sem apresentar argumentos técnicos. Tentarei trazer ao público um pouco de argumentação técnica.

 Infelizmente a imprensa não está divulgando maiores detalhes sobre essa surpreendente lei, mas até aonde sei trata-se de corte na alíquota do imposto de renda das empresas (de 35% para 21%) e existe unanimidade em uma questão, os principais beneficiados serão as grandes empresas, enquanto que para as pequenas empresas o corte na alíquota não terá efeito relevante. Uma grande empresa americana comemorou a aprovação da lei presentando cada um dos seus duzentos mil funcionários com mil dólares, não sei se outras empresas fizeram algo semelhante, mas a jornalista brasileira e militante em favor do governo Trump, Joice Hasselman, noticiou o presente da referida empresa com grande empolgação (aqui).

A primeira questão a ser observada, é a finalidade do sistema tributário, pois é isso que determina se a carga tributária é elevada ou não. Para entender melhor, considere o serviço prestado em troca da arrecadação de impostos, o melhor exemplo está na carga tributária da Suécia, que nominalmente é superior à carga tributária do Brasil, mas o serviço de saúde público oferecido na Suécia é tão bom quando os melhores serviços de saúde privados no Brasil, o mesmo acontece com o ensino, com o transporte e outras áreas.

Apenas por curiosidade, é interessante mencionar que na Suécia muitos serviços são prestados por empresas privadas, isso significa que o Estado não é inchado por servidores públicos, ele apenas repassa os recursos financeiros e fiscaliza as atividades, mas não elimina a fiscalização feita pelos cidadãos, pois o cidadão pode processar essas empresas da mesma forma como processariam qualquer outra empresa e com resposta satisfatória do poder judiciário, enquanto isso, no Brasil o orçamento do judiciário é astronômico, os processos intermináveis e tentar processar o sistema de saúde ou de ensino é praticamente impossível.

A segunda questão a ser observada é a função que o imposto de renda pode ter dentro de uma economia de livre mercado. Para que uma economia possa ser de fato considerada de livre mercado, é necessário que ela não seja manipulada pelo Estado nem pelo poder econômico, portanto só existe livre mercado quando existem regulamentações que impeçam o poder econômico de manipular o mercado, enquanto que e o imposto de renda representa a forma mais adequada de arrecadar recursos para promover a redistribuição de renda. É importante ressaltar que redistribuição de renda é algo implícito na teoria do livre mercado do Adam Smith e explícito na obra de David Ricardo.

Eu não conheço a lei de imposto de renda dos EUA, não sei se existe ou não uma faixa de isenção, ou seja, se o imposto é cobrado sobre qualquer renda ou apenas após a renda atingir algum patamar. Seja como for, seria muito mais eficiente criar ou ampliar a faixa de isenção do que baixar a alíquota. Senão vejamos, uma pequena empresa com lucro de 100 mil dólares, que pagava 35 mil de imposto de renda (35%) e passará a pagar 21 mil dólares (21%), aumentará sua renda em 14 mil dólares, mas uma empresa com lucro de 100 milhões de dólares aumentará sua renda em 14 milhões, ou seja, poderá comprar várias pequenas empresas e diminuir a concorrência, embora não signifique que isso efetivamente acontecerá, ela poderá aumentar salários ou investir em qualquer outra coisa, inclusive em outros países.

Supondo que não exista uma faixa de isenção, seria mais eficiente criar este instrumento, como por exemplo, só tributar a renda que for superior a cem mil dólares, desta forma as pequenas empresas do exemplo anterior não pagariam imposto de renda e poderiam contratar mais funcionários, inclusive ampliando seus negócios, enquanto que as empresas com lucro de 200 mil dólares pagariam os mesmos 35% de sempre, porém apenas sobre o excedente aos 100 mil da faixa de isenção, ou seja, teriam uma redução de 50% no imposto de renda. A renda da empresa que lucra 100 mil aumentaria em 35 mil da mesma forma como a empresa que lucra 200 mil também aumentaria em 35 mil, porém a diferença de renda entre as duas empresas continuaria sendo de 65 mil, ou seja, ambas aumentaria sua renda igualmente sem que uma se fortalecesse ou enfraquecesse mais que a outra.

Na pior das hipóteses, esse modelo que apresento aumentaria o consumo, pois os pequenos empresários passaria a consumir mais, ou produtos mais caros, mas a redução da alíquota não indica nenhum efeito no aumento do consumo, portanto não haverá motivo para aumentar produção, se não haverá aumento de produção, não haverá aumento na oferta de empregos. Só haverá aumento no consumo se as grandes empresas aumentarem os salários, então a redução da alíquota só se justificaria se fosse acompanhada de uma lei que transferisse a redução do imposto diretamente para os salários dos empregados.

Na prática, o que o governo Trump está fazendo é o mesmo que o Brasil faz há muito tempo, ou seja, incentivo fiscal e renúncia fiscal, a diferença é que aparentemente, nos EUA lei beneficia a economia como um todo e não apenas um ramo específico, mas isso é só aparentemente, o ramo específico que está sendo beneficiado não é um ramo da cadeia de produção, é o grande poder econômico como controlador da economia.

A grande depressão de 1929 colocou as três grandes empresas automobilísticas em situação falimentar, a situação foi resolvida justamente pela greve dos trabalhadores que exigiram melhores salários e garantias de emprego, a Chryasler e a Chevrolet não relutaram em fazer acordo com os sindicatos, mas na Ford acontecia uma grande conflito entre o patriarca Henry Ford, que não aceitava fazer acordo com os sindicados e o seu filho que considerava o acordo a única solução para sair da situação falimentar. O conflito na Ford encerrou quando a esposa de Henry Ford o ameaçou com o pedido de divórcio caso não fizesse o acordo com os trabalhadores. O acordo foi feito e as empresas automobilísticas dos EUA superaram a crise.

A cidade de Detroid, capital do automóvel por quase um século, entrou em colapso depois que as grandes montadoras se transferiram para outros países em busca de mão de obra barata. A economia da cidade de Detroid só começou a se recuperar quando começaram a surgir pequenas empresas como pequenas produtoras de roupas, nenhuma grande empresa investiu em Detroit, portanto não há motivos para dizer que o aumento de renda causado pela diminuição na alíquota do imposto vai resultar em investimentos que gerem empregos ou algum tipo de aumento no consumo, muito menos aumento na produção de riquezas.

Mas é possível dizer com segurança que os EUA terão uma quantidade de recursos menor para enfrentar o deficit público, que já é astronômico e tudo indica que vai aumentar mais depois da nova lei. Seja como for, a nova lei deverá causar uma euforia inicial, mas o resultado só poderá começar a ser avaliado depois de seis meses e só poderá ser avaliado efetivamente depois de um ano.

Milton Valdameri, dezembro de 2017.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Terceiro Templo e o Destino da Humanidade

 Este ensaio trata de política e não de teologia, mas o recente anúncio do presidente Trump transferindo a embaixada dos EUA em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém estabeleceu uma relação direta entre a política e a teologia. Em ensaio anterior (aqui) analisei como ficará a nova ordem mundial com o fim do Estado Islâmico e mostrei como a religião participou do contexto político. No ensaio anterior eu mencionei a transferência da embaixada, mas não tinha naquele momento uma declaração pública do governo de Israel sobre essa questão, mas antes de começar a escrever este ensaio encontrei a seguinte declaração do governo de Israel: “Faremos contato com outros governos para que sigam a iniciativa dos EUA, a hora de Israel chegou”. Este ensaio pretende analisar as variantes possíveis mais significativas dessa situação de conflitos políticos, diplomáticos e teológicos. Tentarei ser breve.

 Obviamente a questão teológica do judaísmo deve ser a primeira a ser analisada. Existe uma vertente do judaísmo, que se denomina de judaísmo messiânico, que reconhece Jesus como messias, mas de uma forma diferente dos cristãos, porém como regra o judaísmo não reconhece Jesus como messias e não reconhece a existência de uma cultura judaico-cristã, que só foi inventada pelo ocidente após a Segunda Guerra Mundial. A própria palavra messias é inaceitável para o judaísmo, pois é uma transliteração da palavra hebraica mashiach, que significa ungido.

Existem muitos ungidos no judaísmo, todos os rabinos são ungidos, mas o judaísmo espera por um ungido em especial, O Rei Ungido, que será um líder político que converterá o mundo ao judaísmo. É necessário entender que o povo hebreu não se considera o único povo de Deus, mas o primogênito de Deus, o primeiro povo a ser escolhido por Deus e a missão desse povo e conduzir os outros povos até Deus, portanto todos os outros povos são irmãos do povo hebreu e não inimigos. Existe uma quantidade enorme de argumentos para o judaísmo não reconhecer Jesus como o rei ungido que eles esperavam, mas suponho que as informações apresentadas neste parágrafo são suficientes para entender o raciocínio deste ensaio.

A construção do terceiro templo é condição sine qua non (indispensável) para a vinda do rei ungido, mas havia um grande problema impedindo a construção do terceiro templo no Monte Moriá, existem duas mesquitas no monte, a Mesquita de Omar (Domo da Rocha) e a Mesquita de Al-Aaqsa, mas esse problema foi resolvido no final do século XX / começo do século XXI, depois de aprofundados estudos de engenharia mostrando que é possível construir o terceiro tempo no Monte Moriá sem afetar nenhuma das mesquitas.

É importante lembrar que o terceiro templo não pode ser construído em outro lugar que não seja o Monte Moriá, pois segundo a teologia do judaísmo foi lá que Abraão ofereceu seu filho em sacrifício a Deus, depois substituindo o filho por uma ovelha por determinação do próprio Deus, por isso o Monte Moriá é o único lugar onde é permitido oferecer sacrifício a Deus, o primeiro templo construído por Salomão tinha como finalidade a realização dos sacrifícios, da mesma forma como a construção do segundo templo por determinação do rei da Pérsia, Ciro o Grande, que reconheceu o direito dos judeus de reconstruírem seus templo. É justamente citando Ciro o Grande que os líderes religiosos judeus estão convencendo, ou tentando convencer, os presidentes Trump e Pútin a colaborarem com a reconstrução do templo. O segundo templo foi destruído no ano 70 da era comum e depois da sua destruição os judeus nunca mais ofereceram sacrifício a Deus.

Embora as informações sobre a construção do terceiro templo estejam disponíveis na internet, poucas pessoas sabem que a construção começou em 2015 e tem previsão de 10 anos para ser concluída, aparentemente só falta a construção das paredes, ou seja, do templo propriamente dito, uma vez que os móveis, utensílios e trajes necessário parecem estar prontos. O único empecilho seria a reação dos outros países do Oriente Médio, mas o apoio bélico tanto dos EUA como da Rússia, nenhum país do Oriente Médio terá coragem de atacar Israel, portanto basta esperar que as manifestações contrárias como a intifada comecem a se desgastar, esperar a poeira baixar e construir o templo, uma vez que está óbvio que a construção do templo não implicara em afetar as mesquitas.

Embora a posição que será adotada pela Europa seja uma incógnita, pois é tradicionalmente alinhada com os EUA, é possível que os países da Europa Ocidental não adotem a posição de reconhecer Jerusalém como capital de Israel para não adotar um alinhamento com a Rússia e deixar de ser alvo do terrorismo islâmico, mas no caso da Europa Oriental já houve o alinhamento da República Tcheca com a decisão de Trump. Caso isso ocorra, o mundo viverá uma situação inédita, onde EUA estará mais alinhado com a Rússia do que com a Europa, sem dúvida será uma nova ordem mundial começando a vigorar.

Mas essa nova ordem mundial não está limitada às questões geopolíticas, está relacionada diretamente relacionada com a(s) teologia(s), pois com a construção do terceiro templo os judeus voltarão a fazer sacrifício de animais, com judeus do mundo inteiro indo à Jerusalém para oferecerem sacrifício, isso deverá abalar grande parte do mundo cristão tanto quanto um terreiro de candomblé. Mas é necessário lembrar que dentro do cristianismo existem vertentes que acreditam que Jesus só voltará quando o anticristo se assentar no trono do terceiro templo, inclusive existem vertentes que acreditam que o Trump é o anticristo. Qual será a dimensão dessa confusão, só Deus sabe.

Mas é necessário lembrar que, se rei ungido (messias) dos judeus não vier, o judaísmo estará com um grande problema, no entanto, ao retomarem os sacrifícios de animais no templo, a profecia do anticristo parecerá estar se cumprindo, pois o poder do anticristo estará assentado no templo, existe uma interpretação do anticristo onde ele não é um indivíduo, mas uma maneira de agir que nega o cristo, com os sacrifícios sendo realizados no templo, essa interpretação deverá predominar sobre as outras. Mas se Jesus não voltar em sete anos após o início do reinado do anticristo, o cristianismo poderá sucumbir.

Poucas pessoas sabem, mas o grande inimigo do judaísmo não é o islamismo, é justamente o cristianismo. O motivo de o cristianismo ser o principal inimigo do judaísmo é simples, a concepção de Deus no cristianismo é inadmissível no judaísmo, no entanto isso não ocorre com o islamismo, em verdade, o islamismo satisfaz a profecia de que o povo hebreu será atacado por várias nações que serão derrotadas e convertidas. O islamismo é baseado no profeta Mohammed e não haverá outro profeta depois dele, basta o judaísmo reconhecer Mohammed como profeta e mostrar ao povo islâmico que a mensagem de Mohammed é a mesma mensagem do judaísmo, mas que os líderes islâmicos estão interpretando de maneira errada.

A construção do terceiro templo ao lado das mesquitas evitará que os islâmicos tentem destruí-lo com mísseis ou bombas, pois existe o risco de danificar ou destruir as mesquitas, no entanto isso não impedirá que os cristãos destruam o terceiro templo para combater o anticristo e se o terceiro templo for destruído, não haverá mais condições de continuar existindo judaísmo, significaria a derrota cabal do judaísmo. Sem a vinda do rei ungido, sem a vinda de Jesus e sem o terceiro templo, o islamismo será o vencedor, pois não depende da volta do profeta.

Evidentemente que existem outras possibilidades, mas o que foi apresentado neste ensaio é justamente aquilo que as pessoas estão simplesmente descartando mesmo sendo possibilidades com mais probabilidades que a volta de Jesus ou a vinda do rei ungido. Para encerrar sugiro alguns vídeos, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Esse aqui vai de lambuja, porque hoje estou romântico.


Milton Valdameri, dezembro de 2017.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O Fim do Estado Islâmico e a Nova Ordem Mundial

Devido à existência de muitos vídeos e textos produzidos por mistificadores e enganadores de várias espécies, que circulam na internet com grande quantidade de visualização e repercussão, torna-se indispensável iniciar este ensaio explicando o verdadeiro significado da expressão nova ordem mundial. A ideia de sociedades secretas conspirando para implantar uma nova ordem mundial, inclusive conspirando umas contra as outras, é ridícula por vários motivos, mas o principal motivo é, sem dúvida, o fato de que, se essas sociedades secretas existem, então elas não podem ser secretas, pois são mais famosas na internet que as empresas que fazem publicidade e seus atos e objetivos são mais conhecidos que qualquer outra instituição. Este será um ensaio muito longo.

 Pela própria natureza do mundo, sempre existiu uma ordem vigente, que mais dias ou menos dias, acabam sendo substituídas por uma nova ordem, foi assim com a conquista do fogo, com invenção de armas e ferramentas, com o surgimento da agricultura e da domesticação de animais, mudanças climáticas como o fim da era glacial, todas essas coisas estabeleceram novas ordens mundiais. É possível dizer com grande segurança, que a base da ordem mundial vigente é a vitória de Roma sobre Cartago, desse evento histórico emergiu o Império Romano, sendo a base principal de influência para a ordem mundial vigente atualmente, inclusive a globalização econômica e cultural.

Alguns eventos históricos são especialmente determinantes para entender a ordem mundial vigente na atualidade, são eles: 1) O cristianismo se tornar religião oficial de Roma; 2) O Império Huno dominar a maior parte da Europa; 3) A colaboração dos Godos com o Império Romano, inclusive recuperando a Itália e a península Ibérica do domínio da colisão de bárbaros que derrubaram o império romano do oriente; 4) O domínio da península Ibérica pelos árabes, que por sinal é responsável pelo uso dos algarismos hindus pelos ocidentais (costumam dizer que são arábicos, mas não são) e reintroduziu na Europa o conhecimento sobre os filósofos gregos, além de construírem muitas bibliotecas, ao mesmo tempo em que o cristianismo tinha destruído todo o modelo de conhecimento secular; 5) O surgimento do mercantilismo, a revolução industrial e a teoria do livre mercado de Adam Smith; 6) O padrão ouro como moeda global; 7) O surgimento da URSS, criada por Stálin, Lênin criou a República Soviética e isso não tem muita relevância para a ordem mundial vigente hoje; 8) A segunda guerra mundial; 9) A guerra fria entre o bloco ocidental liberalista e o bloco oriental marxista; 10) A derrota da URSS na corrida armamentista; 11) A revolução dos Aiatolás no Irã; 12) O fim da URSS; 13) O ataque aos EUA em 11/09/2001; 13) A guerra ao terrorismo; 14) O surgimento do Estado Islâmico; 15) A derrota do Estado Islâmico.

Evidentemente que o desenvolvimento da tecnologia é um fator muito importante para a ordem mundial vigente, mas isso não pode ser identificado em momentos históricos, é algo que ocorre constantemente, inclusive porque as invenções mais significativas demoram em influenciar a ordem vigente, então não é viável incluir o desenvolvimento da tecnologia neste ensaio. A ordem mundial vigente, assim como a ordem mundial que se mostra mais evidente como nova ordem mundial, podem ser entendida com razoável profundidade, entendendo a conjuntura a partir da guerra fria e o desenrolar desse confronto.

A guerra fria era baseada em duas disputas, uma era a disputa pela hegemonia do modelo econômico liberal, baseado no livre mercado e praticado pela Europa ocidental, EUA e seus aliados, contra a hegemonia do modelo marxista de economia planificada, praticada pela URSS, por países dominados pela URSS na Europa oriental e alguns países da Ásia, como por exemplo a China. O bloco do modelo de economia liberal era denominado de primeiro mundo e o bloco do modelo de economia marxista era denominado de segundo mundo, os países que não se enquadravam em nenhum desses modelos eram denominados de terceiro mundo, sendo que alguns eram considerados subdesenvolvidos e outros em desenvolvimento (agora denominados emergentes). A outra disputa era a corrida armamentista, onde EUA e URSS disputavam a hegemonia do poder bélico no mundo.

A URSS tinha perdido a disputa do modelo econômico antes mesmo da disputa começar, basta observar que Lênin, após o fim da guerra civil na Rússia, abandonou o modelo econômico marxista e adotou o modelo liberal, conseguindo proporcionar o maior desenvolvimento que já existiu na história da Rússia. Se Lênin tivesse vivido por mais dez anos, a história da humanidade seria totalmente diferente e o marxismo teria desaparecido há décadas, mas o modelo adotado por Lênin durou apenas seis anos e foi substituído pelo modelo marxista dois anos após sua morte, por determinação de Stalin, que fundou a URSS. Por esse motivo a Revolução Russa (revolução de outubro) não pode ser considerada um fator determinante para a ordem mundial vigente, ela abandonou o marxismo por conta própria.

Por aproximadamente sessenta anos, a URSS viveu com um modelo econômico fictício, embora a Rússia fosse (e ainda é) riquíssima em minério, inclusive petróleo, jamais conseguiu proporcionar desenvolvimento para sua população, no entanto conseguiu financiar a Alemanha nazista na segunda guerra mundial (até ser atacada por Hitler) e desenvolver poder bélico para rivalizar com os EUA. Quando Stálin morreu, seu substituto, Nikita Khrushchev revelou ao mundo os crimes de Stálin, causando fraturas nos partidos comunistas do mundo, mas também revelou que a URSS estava quebrada desde sempre. Portanto a derrota do modelo econômico marxista foi admitida em 1954, com a posse de Nikita Khrushchev.

A principal missão do sucessor de Stálin era resolver os problemas da economia, mas a oligarquia política da URSS não cogitava mudar o modelo econômico, evidentemente Nikita Khrushchev fracassou em fazer o modelo marxista funcionar e foi substituído por Leonid Brejnev em 1964. Com o novo presidente, o modelo marxista continuou sem apresentar algum resultado positivo, e a única opção para vencer a disputa dos modelos de economia era um fracasso maior no modelo liberal.

A primeira crise do petróleo, em 1973, colocou o modelo liberal sob provação. A versão oficial para a causa da crise é uma retaliação da OPEP aos EUA, por ter apoiado Israel na Guerra do Yom Kippur, quando Egito e Síria romperam o acordo de cessar fogo e atacaram Israel no dia do feriado que deu nome à guerra. O apoio dado pelos EUA a Israel foi apenas fornecendo petróleo, esse seria o motivo de fazer uma retaliação aumentando o preço do petróleo.

Mas existem questões obscuras em relação à essa versão oficial. Países como Arábia Saudita, Iraque e Kwait tinham bom relacionamento com os EUA, o Irã tinha inclusive bom relacionamento com Israel, não faz sentido esses países iniciarem um conflito com um aliado tão poderoso, principalmente porque esses países dependiam dos EUA e de outros países aliados dos EUA para a maioria dos produtos, que obviamente teriam seus preços aumentados como consequência do aumento no preço do petróleo, é como atirar na vidraça do vizinho para quebrar o vidro e ser atingido no próprio pé, pelo ricochete do projétil.

O único agente político que seria beneficiado com a crise do petróleo seria a URSS, inclusive na economia, pois era grande produtora de petróleo, abalaria a credibilidade do modelo liberal e como não fazia parte da OPEP, abriria portas para vender seu petróleo, inclusive mais barato. É importante lembrar que, com o fim da URSS, vieram à tona vários documentos mostrando que a segunda guerra mundial foi um projeto do Stálin, esse documentos mostram que Hitler, o Nazismo e a Alemanha foram os instrumentos usados por Stálin. Então não deveria ser difícil usar a Síria e o Egito, que eram alinhados com a URSS, para provocar uma guerra com Israel e provocar um crise no bloco da economia liberal. Mas também não devemos esquecer que políticos são peritos em fazer besteiras, a primeira guerra mundial só aconteceu devido a idiotice do imperador alemão. Então, é aconselhável não descartar nenhuma das hipóteses.

Independentemente de quem causou a primeira crise do petróleo, a imagem apresentada para o mundo durante esse período era de um bloco liberal em crise e de um bloco marxista estável, pois a crise no bloco marxista sempre foi acobertada. Mas o modelo liberal saiu vitorioso, o livre mercado superou a crise e os grandes prejudicados foram os países do terceiro mundo, que não enfrentaram a crise com o livre mercado, mas com intervenções do estado na economia, o resultado foi um processo inflacionário que saiu do controle e levou aproximadamente duas décadas para ser controlado.

Ao contrário do que a crise do petróleo poderia oferecer à URSS, que seria a ruína do modelo liberal, a situação mostrou que o modelo liberal tem grande capacidade de superar crises, mas o modelo marxista não é capaz de sair da estagnação. A disputa entre os modelos econômicos estava mais que decidia em favor do modelo liberal, restava à URSS apenas a disputa na corrida armamentista. Mas é necessário entender que as armas atômicas não tinham relevância na corrida armamentista, por um motivo simples, os dois lados possuíam armas atômicas suficientes para destruir o inimigo, então, iniciar uma guerra com armas atômicas significava iniciar a própria destruição, não importava quem seria destruído primeiro, o outro lado sempre conseguiria reagir a tempo de destruir o lado que atirou primeiro.

A guerra fria ficou restrita à corrida armamentista de armas convencionais, mas durante o governo de Jimmy Carter (20/01/1977 à 20/01/1981), os EUA desenvolveram doze projetos militares que estabeleceram a superioridade bélica em favor dos EUA, a corrida armamentista também estava decidida em favor do bloco liberal. É oportuno lembrar que, embora financiados pelo governo Carter, o governo americano não tem a atribuição de desenvolver armas, essa é uma atribuição das forças armadas, que são instituições de estado e não instituições de governo, portanto não deve ser entendido como um mérito do governo Carter, deve ser entendido apenas como um fato acontecido durante seu governo.

Essa informação sobre a supremacia americana ter sido atingida durante o governo Carter só foi tornada pública pelo filho de Nikita Khrushchev no documentário “Comunismo Uma Ilusão” e até hoje permanece desconhecida pela maioria das pessoas. No entanto, existia um problema político, os EUA não podiam anunciar a supremacia bélica, pois seria vista como mera estratégia política, além do mais poderia ser interpretada pela URSS como uma provocação e iniciar um conflito bélico. Por outro lado, a URSS não podia anunciar sua inferioridade, pois perderia sua influência política e o controle sobre os países que dominava ou estavam alinhados politicamente com a URSS.

Oportunamente, em janeiro de 1978 ocorreu a revolução dos Aiatolás no Irã, que acabou com a deposição do Xá Reza Pahlev. É necessária lembrar que o Irã era um país alinhado com o modelo liberal e tinha bom relacionamento até mesmo com Israel, mas não havia sinais de descontentamento da população com a política externa do país. O descontentamento da população estava relacionado com a excessiva influência dos costumes ocidentais em sua cultura, mas é questionável se esse descontentamento foi espontâneo ou disseminado deliberadamente por motivos políticos.

Tentar descartar a ingerência política por parte da URSS é tapar o sol com a peneira, pois o Xá Reza Pahlev concentrou sua reação justamente combatendo o comunismo, porém o combate ao comunismo prendeu muitos adversários políticos e fortaleceu a insatisfação do povo com o governo, fortalecendo também o apoio aos Aiatolás. É possível dizer com segurança que a revolução no Irã foi uma experiência bem-sucedida no sentido de usar a religião como arma para destruir o liberalismo, os costumes ocidentais e seculares.

A revolução no Irã causou uma segunda crise do petróleo, mas a resposta do governo Carter à ingerência da URSS no Irã foi um tapa de luvas com o poder de uma martelada. Jimmy Carter reduziu drasticamente o orçamento militar, fortalecendo as finanças públicas e minimizando os efeitos inflacionários da segunda crise do petróleo. Reduzir drasticamente o orçamento militar em plena guerra fria significava apenas uma coisa, a URSS não representava mais uma ameaça militar.

Em novembro de 1979, nove meses após os aiatolás implantarem a teocracia islâmica no Irã, a embaixada dos EUA foi invadida e 52 americanos foram feitos reféns. A invasão na embaixada dos EUA não faz sentido para os interesses dos aiatolás, pois eles poderiam simplesmente expulsá-los do país e romper relações diplomáticas. Mais uma vez a única beneficiada pela crise política causada aos EUA seria a URSS. Depois de seis meses de tentativas fracassadas nas negociações para libertar os reféns, foi realizada uma operação militar, que resultou num retumbante fracasso e agravou a crise.

O fracasso da operação militar no resgate dos reféns foi amplamente utilizado nas eleições americanas de 1980, pela campanha do adversário de Jimmy Carter, o republicano Ronald Reagan, que atribui o fracasso da operação militar ao governo Carter sem responsabilizar os verdadeiros responsáveis pela operação, que eram os próprios militares. A campanha de Reagan atribuiu o fracasso da operação militar no Irã ao corte no orçamento das forças armadas, mas os militares americanos nunca mostraram insatisfação com o corte no orçamento, além do mais, uma operação militar possui orçamento separado do orçamento padrão.

Reagan venceu as eleições, um acordo com o Irã foi assinado na véspera da posse e os reféns foram libertados poucos minutos após a posse de Reagan. Precisa dizer mais? Entre as primeiras medidas adotadas por Reagam, estava o aumento no orçamento militar, que resultou no aumento imediato da inflação nos EUA, por desequilibrar o orçamento. Mas a medida mais importante foi o anúncio do projeto “Guerra nas Estrelas”, que consistia em satélites capazes de interceptar mísseis intercontinentais com raio laser. Esse projeto serviu de pretexto para a URSS admitir a supremacia bélica dos EUA e iniciar reformas estruturais como a glasnost e perestroika, que resultariam no fim da URSS, decretando oficialmente o fim da Guerra Fria.

Ocorre que o projeto “Guerra nas Estrelas” é inexequível, ou seja, uma farsa que relacionou o fim da URSS com a corrida armamentista de armas atômicas e não com a corrida armamentista de armas convencionais. No entanto, a Rússia nunca deixou de ter capacidade de destruir os EUA com armas atômicas, tampouco a Rússia adotou um modelo democrático para a política ou um modelo ocidental para a economia, muito pelo contrário, a Rússia sempre combateu a globalização do modelo econômico ocidental.

Para aqueles que consideram absurdo dizer que o projeto “Gerra nas Estrelas” foi uma farsa, eu pergunto apenas o seguinte: por que ele não está sendo executado agora que a Coreia do Norte representa uma ameaça iminente de ataque atômico? Mas quero deixar claro que a farsa do projeto “Guerra nas Estrelas” não deve ser considerada uma conspiração contra o mundo ou contra os EUA, foi uma solução diplomática bilateral que evitou o prolongamento e um possível agravamento da Guerra Fria.

Mas no meu entendimento, a Guerra Fria só acabou no papel, o combate ao modelo econômico ocidental continuou sendo praticado, porém com novas armas, a religião e o conservadorismo. Mas é necessário entender a diferença entre conservadorismo e pensamento conservador. A democracia é baseada em duas linhas de pensamento, o conservador e o liberal, que são divergentes nas ideias, mas não são inimigos que desejam destruir um ao outro, inclusive as duas linhas de pensamento possuem divergências internas que resultam em convergências externas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, parte do Partido Republicano e parte do Partido Democrata eram contra a entrada na guerra, enquanto que as outras partes de ambos os partidos eram a favor. No Partido Democrata, John Kennedy era a favor da entrada na guerra, mas seu pai era contra. Outro exemplo significativo de convergência entre as duas linhas de pensamento é o atual governo de Donald Trump, onde em determinadas ocasiões o próprio partido manifesta oposição. No caso do governo Trump aconteceu uma situação inédita, pela primeira vez uma chefe de governo conservadora do Reino Unido se manifestou contra um chefe de governo conservador dos EUA.

O conservadorismo não possui relação com a democracia, é baseado em autoritarismo com estreita relação entre estado e religião, como acontece nos países islâmicos, o exemplo mais significativo de conservadorismo relacionado com o cristianismo vem justamente da Rússia com o regime czarista, que por sinal não era muito diferente do regime stalinista. É oportuno lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa sempre foi uma instituição controlada pelo Estado, tanto no período czarista como no período stalinista, e o serviço da igreja ao Estado permanece até hoje.

Coincidentemente, mas eu não diria que foi por mera coincidência, na década de 1980 começou uma monstruosa proliferação de denominações de igrejas cristãs, a estimativa atual é de mais de 50 mil denominações diferentes de igrejas cristãs. A maioria dessas denominações são explicitamente inimigas dos valores ocidentais seculares e da ciência, mas também são explicitamente inimigas da igreja católica e das igrejas protestantes tradicionais. Não há como negar a semelhança entre a revolução no Irã e a influência dessas novas igrejas na política dos países ocidentais.

Uma palestra apresentada em 1983, na Summit University de Los Angeles (aqui), um suposto desertor da KGB mostrou como a URSS praticava a subversão nos países inimigos e também mostrou como se proteger dessa subversão. Segundo o suposto desertor, a base da defesa contra a subversão é promover a religião, mas também é necessário restringir liberdades, restringir direitos civis e controlar os meios de comunicação, ou seja, rasgar a constituição americana.

O suposto desertor apresentou os meios de comunicação como subversivos com base no fato de que os jornalistas não são eleitos, mas não usou o mesmo critério para considerar a religião subversiva, por acaso os aiatolás, os pastores evangélicos, os padres, os bispos e os cardeais são eleitos por alguém? O papa é eleito, mas quem o elege são os cardeais que não são eleitos por ninguém, em verdade, são nomeados pelo papa anterior e seguem o viés de eleger o próximo papa para prosseguir com o pensamento do papa anterior, embora isso nem sempre aconteça.

A palestra do suposto desertor necessita de uma análise criteriosa, que não pode ser apresentada integralmente neste ensaio, mas resta algo que não posso deixar de mencionar. Em nenhum momento o suposto desertor menciona a revolução no Irã, pois seria um exemplo contundente de uma situação onde a religião derrubou um governo e transformou o aliado dos EUA em aliado da URSS, no entanto, foi citada a guerra civil no Líbano, dizendo de forma subliminar que a guerra civil no Líbano foi consequência da subversão praticada pela URSS promovendo liberdades civis como o feminismo e direitos aos homossexuais, que ele havia mencionado anteriormente como liberdades a serem restringidas. Ocorre que a guera civil no Líbano foi mais uma revolução promovida através da religião e que derrubou outro governo alinhado com os EUA e se tornou alinhado com a URSS.

Outra questão de extrema relevância é a guerra no Afeganistão, que acabou sendo apresentada ao público como o Vietnã da URSS. Mas existe um final muito peculiar com a derrota da URSS no Afeganistão, o governo do Afeganistão ficou nas mãos do Talibã, que colocou o Afeganistão como base territorial para a Al-Qaeda treinar terroristas. A parte mais interessante é que o Osama Bin Laden foi arregimentado pelos EUA para liderar um grupo treinado pela CIA para combater os soviéticos no Afeganistão, foi exatamente esse grupo o responsável pelo surgimento da Al-Qaeda, que se transformou no principal inimigo dos EUA após o fim da URSS. Concluindo, o suposto desertor mostrou em sua palestra em 1983 o modelo que corresponde ao adotado pela Rússia após o fim da URSS.

Embora existam outros eventos históricos que podem ser mencionados, não vou mencioná-los pois o ensaio já está muito longo e considero que os eventos mencionados são suficientes para a construção do raciocínio. Então vou pular uma parte da história e ir diretamente para o ponto central deste ensaio, que é o fim do Estado Islâmico e a Nova Ordem Mundial. Mas antes é oportuno lembrar que, em julho de 2016, publiquei um ensaio sobre o Estado Islâmico (aqui) onde disse que ele já estava derrotado mas a guerra não tinha acabado e não havia previsão de quanto tempo duraria. Posso dizer com segurança que acertei plenamente em minha análise sobre a derrota do do Estado Islâmico, inclusive com a guerra terminando antes do que eu imaginava.

Também devo mencionar que publiquei em abril de 2017, um ensaio sobre o bombardeio dos EUA à Síria (aqui), destruindo uma pista da força aérea síria, devido ao uso de armas químicas contra os rebeldes sírios. Nesse ensaio eu mencionei a possibilidade de um acordo entre Trump e Pútin, no sentido de derrubarem o governo da Síria e saírem os dois como vencedores, o Trump por derrubar o governo da Síria e o Pútin por conseguir a simpatia dos americanos e europeus. Desta vez errei feio e o Trump se mostrou mais serviçal do Pútin do que nunca.

Num encontro entre Trump e Pútin, ocorrido na Rússia, o resultado diplomático foi o seguinte: concessões feitas por Trump, TODAS; concessões feitas por Pútin, NENHUMA. Os EUA pararam de apoiar os rebeldes sírios e o governo que Trump disse que ia derrubar se consolidou no poder. No entanto, Trump disparou pesado contra o Irã, não com o uso de armas bélicas, mas armas diplomáticas. Trump revogou o acordo como Irã sobre armas atômicas, colocando um fim na reaproximação que o Irã estava fazendo com os EUA, contrariou a ONU e todos seus aliados tradicionais que apoiavam o acordo, com exceção de Israel, que atualmente possui o pior governo de sua breve existência.

O atual governo do Irã conta com grande apoio da população, mas grande oposição do fundamentalismo religioso, a reaproximação com os EUA e o ocidente significava um enfraquecimento da influência da Rússia no Oriente Médio, mas também significava um enfraquecimento do fundamentalismo islâmico e do terrorismo. Agora o governo do Irã ficou isolado e terá que fortalecer novamente seu relacionamento com a Rússia, a possibilidade de ser derrubado e substituído por um governo fundamentalista é significativa.

Outro país que estava se aproximando veladamente da Rússia há algum tempo é a Turquia, com a política externa do Trump essa aproximação ficou explícita e está se consolidando cada vez mais. Mas as consequências não param aqui, com a derrota do Estado Islâmico a Arábia Saudita também se aproximou da Rússia, inclusive comprando armas, porém o mais impressionante foi a aproximação de Israel com a Rússia. Esse é o saldo no Oriente Médio após um ano de governo Trump, não derrubou o governo da Síria, não trouxe o Irã para o seu lado, perdeu a Turquia e os dois principais aliados se aproximaram da Rússia, Arábia Saudita e Israel.

Não posso deixar de mencionar que há poucos dias, Donald Trump decidiu transferir a embaixada dos EUA de Telaviv para Jerusalém, como demostração do reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. Essa decisão foi tomada sem nenhum pedido por parte de Israel, foi recebida pela ONU e pela comunidade internacional como uma afronta, mas para os países islâmicos foi recebida como uma agressão. Trump conseguiu se afasta muito mais do Oriente Médio e acendeu as brasas de uma fogueira que estava latente.

Não encontrei nenhuma manifestação de Israel sobre o ocorrido, se alguém tem informações sobre isso, por favor apresente nos comentários. É muito difícil entender o que se passa na cabeça do Trump, é possível que ele próprio não saiba, mas os indícios mostram que Trump não desejava agradar Israel, mas os fundamentalistas cristãos que entendem que com o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, será construído o terceiro tempo, condição necessária para a vinda de Jesus, para que os fanáticos cristãos sejam arrebatados aos paraíso e o resto do mundo mandado para o quinto dos infernos.

Para não ferir a honestidade intelectual, indico três vídeos (aqui, aqui e aqui) que apresentam outra análise sobre a situação da Rússia. No terceiro vídeo fica explícita a ingerência da Rússia na OPEP, mas os dois primeiros podem ser considerados como contrapontos ao ensaio. Mas no meu entendimento, a Nova Ordem Mundial se caracteriza pelo domínio do Oriente Médio, pelo controle do mercado de Petróleo pela Rússia e o conflito religioso será a arma de desestruturação da cultura secular ocidental. É oportuno lembrar que o conflito de religião já foi usada pelo Nazismo e que a Segunda Guerra Mundial foi uma estratégia do Stálin para dominar a Europa. Se desta vez a cultura secular ocidental será derrotada, vai depender da própria população que deseja continuar vivendo de acordo com essa cultura.

Como ficará a situação da Europa e do continente americano ao sul dos EUA é algo ainda indefinido, mas é necessário observar que Trump retirou os EUA do Tratado do Pacífico, que tinha uma cláusula de permitir a participação da China justamente para satisfazer os EUA, com a saída do tratado, a cláusula perdeu sentido e o espaço ficou vago para a participação da China. No caso da Europa, a aproximação comercial com a China está em pleno andamento e cada vez mais consolidada, a possibilidade de a China servir de canal entre a Europa e o Tratado do Pacífico é significativa. Mas por enquanto é apenas especulativo.

Para finalizar, é importante dizer que a velha luta de classes não foi substituída pelo conflito de religiões, embora a luta de classes não funcione mais em países desenvolvidos, ela continua sendo eficiente em países subdesenvolvidos como o Brasil, a Venezuela é o exemplo mais contundente da eficiência da luta de classes na atualidade. Mas é legítimo dizer que a luta de religiões se tornou a principal estratégia do marxismo, mesmo onde a luta de classes ainda está sendo usada. Não deve ser esquecido que um dos aforismos centrais do marxismo é “a religião é o ópio do povo”, nada melhor do que o ópio para destruir uma sociedade, não é mesmo?


Milton Valdameri, dezembro de 2017.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Entenda o Movimento Pela Intervenção Militar


Este artigo tem como objetivo apresentar esclarecimentos sobre o significado de uma intervenção militar, as formas possíveis de intervenção e suas consequências. O tema, aparentemente controverso, é em verdade mal entendido pela população, portanto a controvérsia não está no tema propriamente dito, mas na falta de conhecimento da população, que por via de regra, está sujeita ao jornalismo medíocre praticado no Brasil, jornalismo que na prática busca a formação de opinião em vez de informar o cidadão.
De acordo com a Teoria do Estado, as forças armadas existem antes mesmo da existência do Estado, em verdade, o Estado existe a partir das Forças Armadas, não são as Forças Armadas que existem a partir do Estado. Embora a política moderna permita a existência de estados sem forças armadas, esses estados necessitarão da proteção de forças armadas externas, como ocorre com o Estado do Vaticano, que é uma monarquia absolutista mas não possui exército próprio e conta a proteção de outros países.

Mas o Estado do Vaticano é uma exceção em sua própria natureza, pois não é baseado em política, mas sim em religião, ou seja, não existe disputa pelo poder da forma como ocorre em outros Estados, mesmo nas mais poderosas ditaduras, sempre existe uma oposição que deseja o poder, mesmo que seja de forma clandestina e secreta. Mas o fato é que, seja em uma ditadura ou em uma democracia, nenhum governo consegue se manter sem o apoio, ou conivência das forças armadas. Mas o objeto deste artigo é o Brasil, então é necessário entender a situação das Forças Armadas em nosso país, que é uma democracia, pelo menos aparentemente.

A Constituição da República Federativa do Brasil diz em suas cláusulas pétreas, que todo o poder emana do povo e que as Forças Armadas são instituições permanentes e regulares, sob autoridade suprema do presidente da república, mas também prevê que o presidente de qualquer um dos três poderes, executivo, legislativo ou judiciário tem o poder para convocar as Forças Armadas. Portanto existem três possibilidades para uma intervenção militar no Brasil.

A primeira possibilidade de intervenção militar, é a convocação das Forças Armadas por algum dos três poderes da república. Neste caso, as forças armadas devem restabelecer a lei e a ordem e promover novas eleições num prazo de, salvo engano, três meses e não realizariam nenhuma alteração de ordem estrutural, política ou jurídica. Muitas pessoas estão defendendo esta opção e denominando como “intervenção militar constitucional”, mas esperam que essa intervenção resulte na implantação de um governo militar e não em simples restabelecimento da ordem e convocação de eleições. Não existem condições legítimas para esse tipo de intervenção, pois dentro do ponto de vista legal, embora todos percebam que as necessidades da população não estão sendo respeitadas, as instituições estão funcionando dentro das previsões legais.

A segunda possibilidade é a intervenção militar convocada por iniciativa da população, esta possibilidade é respaldada pela cláusula pétrea da constituição, que determina que todo o poder emana do povo. Embora a constituição não estabeleça de forma explícita e literal, que o povo pode convocar as forças armadas, a interpretação de que esse é um direito legítimo de qualquer população é reconhecida internacionalmente e existe um precedente recente, ocorrido na Tailândia em 2014.

A intervenção militar na Tailândia tem uma característica muito especial, ela foi orientada pelo próprio Rei. A Tailândia é uma monarquia parlamentarista, ou seja, o Rei é o chefe de Estado e o Primeiro-Ministro é o chefe de governo, a população fez manifestações nas ruas pedindo ao Rei que promovesse a intervenção militar, no entanto, o Rei orientou a população no sentido de pedir a intervenção diretamente aos militares, então a população passou a se manifestar em frente aos quartéis.

Essa característica da intervenção militar na Tailândia, é muito relevante para entender a legitimidade dessa forma de intervenção militar, pois se o Rei tivesse convocado a intervenção militar, mesmo sendo ele o chefe das forças armadas, ele estaria, aos olhos da comunidade internacional, dando um golpe de estado, ou seja, seria um poder do estado subjugando outros poderes do estado. No entanto, a convocação das forças armadas a partir da população não pode ser considerada golpe de estado, muito pelo contrário, é a forma mais direta de democracia, pois as forças armadas não fizeram a intervenção para atender aos interesses do chefe de estado, mas para atender às necessidades da população. Se elas vão cumprir o compromisso, isso é outra questão.

No caso da Tailândia, por ser uma monarquia parlamentarista, o chefe de estado não foi retirado do poder, mas no Brasil o chefe de estado e o chefe de governo são a mesma pessoa, portanto seria muito estranho o chefe de estado orientasse o povo sobre como agir para retirá-lo do poder, embora no Brasil, tudo pode acontecer, inclusive nada. É oportuno lembrar que o próprio presidente, ministros e congressistas, dizem publicamente que o atual governo é semi parlamentarista, então eu pergunto, em que parte da constituição brasileira isso é permitido?

A terceira possibilidade de intervenção militar, é quando as forças armadas intervém por iniciativa própria, neste caso trata-se golpe de estado pura e simplesmente. Neste caso, comunidade internacional poderia apresentar sanções (e provavelmente faria), portanto, mesmo que uma intervenção deste tipo fizesse as mudanças necessárias, teria muito mais dificuldades para melhorar a situação do país. Infelizmente, tem muitas pessoas que desejam essa forma de intervenção.

Esclareço que a segunda forma de intervenção, emanada do povo, não possui tempo determinado de duração, como no caso da primeira forma. No entanto, está implícito que a intervenção não deve durar mais que o necessário para realizar as mudanças estruturais, sob o risco de praticar desvio de função das forças armadas, pois as forças armadas não tem em sua natureza a finalidade de governar países, apenas protegê-los.

Para finalizar, respeitando devidamente os pontos de vista contra e a favor de uma intervenção militar, informo que está prevista para o dia 12/11/2017, uma manifestação em frente aos quartéis, sendo que nas cidades onde não existem quartéis das forças armadas, podem ser realizadas manifestações em frente aos quartéis da Polícia Militar. Sobre a intervenção que ocorreu na Tailândia, sugiro um vídeo que mostra a cobertura feita pela Euronews e pela Globo, além do comentário de um brasileiro que mora na Tailândia (aqui).

Milton Valdameri, novembro de 2017